Oi gente,
estamos há três meses em Zurique. Nesse tempo, vivemos uma vida. Alugamos um apartamento e construímos um lar. Reaprendemos coisas simples como limpar a casa, cozinhar, usar o transporte público, jogar o lixo fora... A lista vai longe. rs É como se tivéssemos nascido novamente, mas agora juntos, como família. Cada um vivendo a sua experiência, única e particular, mas compartilhando as angústias e as vitórias.
O que mudou na minha vida? Absolutamente tudo. Só ficou o marido e a filha, de resto... Acho que fica mais fácil entender o tamanho da mudança com um esquema simples de tinha e não tem mais. rs
Eu tinha:
Carro
Emprego
Colegas
Amigos
Empregada (que saudades)
Família (moravam longe, mas não tão longe)
Viu o tamanho da mudança? E não venha me dizer que o importante é SER e não TER. rs Eu sei disso. Por isso estou aqui, encarando uma boa faxina. Mas sou gente, né? Tenho saudades, sim, da mordomia, da picanha, do chopinho, dos papos filosóficos com os queridos amigos e colegas de trabalho.
Além disso, com a mudança de país, eu entendi que o TER é, sim, bastante relacionado ao SER. Eu, por exemplo, sou outra pessoa, muito em função do eu sempre tive e não tenho mais e do que eu nunca tive e agora tenho. A estrutura da minha vida mudou e, não tem como, continuar sendo a mesma Carol no meio desse furacão.
Sempre fui firme, determinada, nervosa, estressada, algumas vezes até agressiva, querendo sempre ter razão. Aqui descobri que também sou frágil e que sei ser suave. Agora sei reconhecer que preciso de ajuda e encontrar no Ênio esta força, que eu simplesmente não sabia que existia. Aqui, nós revimos os nossos conceitos, sobre o mundo e sobre nós mesmos.
Sou uma mãe diferente. Vendo como as crianças daqui são soltas e independentes, já consigo ver que a Leila não é um bb. Ela me ajuda a lavar as verduras, arrumar a mesa, guarda as roupinhas e sapatos quando chega da rua... Enfim, eu entendi que ela pode, ela é capaz. Com isso, ela se sente mais segura de si e muito mais feliz.
No Brasil a gente via muita TV, aqui a gente brinca mais. Um dos motivos é a mentalidade local, que acaba contaminando a gente. rs TV aqui é quase um pecado. O ideal, segundo eles, é meia hora por dia. O estado oferece muitas coisas a preços módicos (nada aqui é de graça) para entretenimento da família. Além disso, tem sempre um parquinho, um bosque, uma piscina pública por perto. Só fica em casa quem quer.
Não ter carro e nem empregada me obriga a fazer tudo com a Leila. Isso tem nos tornado muito mais companheiras. Com isso, eu também passei a me incomodar com coisas que não me atrapalhavam tanto no Brasil. Vamos dizer que as birras dela só eram inconvenientes nos finais de semana, então a gente ia deixando passar. rs Aqui eu fui obrigada a chamar mais a atenção e ela está se comportando muito melhor agora que sabe exatamente o que esperamos dela.
Também eu estou me comportando melhor. rs Eu também fiquei menos mimada. Menos voluntariosa. Eu também aprendi que nem tudo é quando a gente quer, do jeito que a gente quer. Essa nova vida, que está só no começo, já me transformou completamente. Pelo menos por enquanto, as mudanças estão sendo para melhor. rs
Um abraço,
Carol.